Escolas serão um celeiro de novas variantes do Coronavírus | Artigo de Paula Aparecida

São Paulo é o estado mais rico e populoso do Brasil, com peso de 31,6% do PIB e uma população de 44,9 milhões de habitantes. Se fosse um país, esse estado seria o 21ª no ranking das maiores economias do mundo, seria a terceira maior economia e também mercado consumidor da América Latina. Além disso, em 2020, ao contrário da retração de 3,5% da economia mundial, (a do Brasil com menos 4,1%). São Paulo registrou aumento de 0,4%.

Apesar desses recursos, São Paulo bate hoje recorde de mortes na pandemia, com número de óbitos equiparado ao de nascimentos. Se fosse um país, SP estaria pior que o Brasil na letalidade da Covid-19. Isso é justo?”

Não. Não é justo, pois existe estrutura para deixar de ser “campeão nacional” das mortes e contaminações. O Estado paulista poderia ter garantido a recondução industrial para insumos nos hospitais, pactos com Cuba para mais profissionais da saúde, máscaras N95 e outas EPI’s, auxílio emergencial para garantir isolamento adequado (SP é caro, sem a sobrevivência garantida, o povo não fica em casa). Mas no lugar dessas ações positivas, o governador preferiu cortar 820 milhões de reais da saúde.

Bom, o assunto hoje é educação. João Doria anunciou novamente a liberação gradual das aulas presenciais. O Brasil foi um dos países do mundo que manteve escolas fechadas por mais tempo, ou seja, houve um período longo para adaptação das normas sanitárias – de acordo com dados do SAEB, mais de 50% das escolas estão sem ventilação adequada, sem falar que são pavorosamente apenas dois funcionários da limpeza por escola (assumido por Rossieli no Roda Viva). O negacionismo não está somente sobre negar a vacina, é também negar toda pesquisa científica que diz qual é o caminho mais correto para salvar vidas.

Segundo o biólogo especialista em virologia Átila Iamarino, casos de pessoas que tomam apenas uma dose e não se resguardam com lockdown têm chance de desenvolver e espalhar uma mutação mais forte do vírus.

E o que aconteceu em São Paulo? Doria retornou às aulas presenciais simultaneamente à primeira etapa da imunização. Mesmo a ciência mostrando que é só 15 dias depois da segunda dose, que a Coronavac começa a fazer efeito. Neste caminho, as escolas irão virar um celeiro de novas variantes.

Pesquisa realizada pela Rede Escola Pública e Universidade (Repu) indica que a abertura das escolas em fevereiro já aumentou a curva de casos e mortes de professores – a incidência de Covid-19 entre os docentes foi quase o triplo da população registrada entre 29 e 59 anos.”

Foi criado um protocolo de segurança igual para mais de 5 mil escolas, sem consulta à comunidade/conselho de pais e mestres. Enquanto o Colégio Bandeirantes faz parceria com o Hospital Sírio Libanês para a criação de um protocolo seguro, o governo cria um mesmo protocolo para mais de cinco mil escolas.

Mas e as aulas virtuais? Até meados do ano passado metade dos alunos não tinha acessado a plataforma online. Os estudantes nunca receberam tablets e acesso a internet (prometeram chips para apenas 25% dos alunos, estamos em abril e a entrega está atrasada). As merendeiras escolares diárias foram substituídas por auxílios de 55,00 reais mensais – isso somente para 25% de estudantes (nada para os outros 75%). Vale a empatia de se perguntar quem alimenta uma criança/adolescente com esse valor?

Mas, e os professores não querem trabalhar? Alguns deles tiveram os salários reduzidos em 15% (resultado das reformas feitas pelo Doria), o serviço dobrado e tiveram que comprar computadores e demais materiais de trabalho. Depois de quase 1 ano, o governo ofereceu um, acreditem, empréstimo para a compra de computadores, mas o profissional com um certo número de faltas de saúde terá que devolver o dinheiro com juros para o governo. Literalmente, é pagar para trabalhar.

A volta às aulas de forma segura precisa de um plano de vacinação pautado tanto pelo direito à vida de todos quanto à prioridade educacional das crianças mais vulneráveis. A vacinação anunciada será de apenas 40% de todos os profissionais das escolas públicas e particulares do ensino básico, apenas quem estiver acima de 47 anos. O governo não apresentou prazo para fim dessa primeira vacinação e nem qualquer plano para os outros 60% de profissionais.

Faz-se necessário um plano de vacinação por ciclo, imunizando 100% dos profissionais da educação infantil, independente da idade, posteriormente todos do Fundamental I, em terceiro o Fundamental II e, por fim, do Ensino Médio para garantir a retomada das aulas presenciais de acordo com as faixas etárias e grau de vulnerabilidade dos estudantes e necessidade das famílias. Especialmente às mulheres mães sobrecarregadas e abandonadas, maioria pobres, negras e indígenas – é urgente o pagamento de um auxílio emergencial paulista que cubra, no mínimo, o baixíssimo salário mínimo do estado.

Aqui no grande estado de São Paulo temos a dupla BolsoDoria, negacionista e irresponsável com a vida humana em duas versões diferentes, uma raiz e outra nutella. Se São Paulo fosse um país, seria uma nação que desvaloriza tanto o direito à vida, quanto à educação – com mais mortos per capita do que de um país chamado Brasil, aquele governado por um negacionista, golpista e irresponsável.

Paula Aparecida (PSOL) é professora da rede pública estadual e conselheira da APEOESP. Atualmente é codeputada estadual pela Mandata Ativista. Feminista vegana, moradora da Brasilândia, em transição para comunismo espiritualizado, defende direitos de animais humanos e não humanos e conjunto da natureza focando em justiça social e garantia do direito à educação como fundamentos para o futuro e existência da espécie humana nesse planeta

FONTE: Carta Capital

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